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domingo, 9 de dezembro de 2007

Noites de estrelas – NO CAMPO

Vivi anos no interior, no mato, aonde não chegam a água e o asfalto, o correio e o jornal. No alto, bem no alto do morro.

Existem, porém, noites muito claras, iluminadas apenas pela lua e pelas estrelas. Parece coisa de quem exagera ou de poeta. Como é possível?

O fato é que, antes de morar ali, não imaginava que existissem noites assim. Olhando o céu, há tantas estrelas e enormes manchas brancas, que jamais vi quando morava na cidade. É impressionante!

Esse olhar o céu, fantástico, nos acompanha agora, vivendo novamente na cidade.

Sei que todas estão lá, apenas não podemos vê-las. Assim como não as vemos durante o dia.

Milhares e milhares de estrelas, convidando-nos a sonhar. Como em nenhum outro lugar tive a oportunidade de ver.

Límpidas, claras, alumiando o caminho. A noite fazendo-se dia.


Maria da Glória Perez Delgado Sanches
Membro Correspondente da ACLAC – Academia Cabista de Letras, Artes e Ciências de Arraial do Cabo, RJ.

Conheça mais. Faça uma visita blogs disponíveis no perfil: artigos e anotações sobre questões de Direito, português, poemas e crônicas ("causos"): http://www.blogger.com/profile/14087164358419572567
Pergunte, comente, questione, critique.
Terei muito prazer em recebê-lo.

Nova caipira: plantando mandioca - NO CAMPO

Um dia, no pomar, minha sogra me pergunta como se plantava mandioca.

E eu sabia como se plantava mandioca? Penso. Respondo que com pedaços da mandioca.

Resposta errada. Não apenas errada, mas estúpida. Eu, bicho da cidade vivendo recentemente no mato, deveria saber que não se planta raiz. Sinal de que não pensei direito.

Ela ri. Ri às escâncaras. Depois, ensina-me a plantar. O caule apresenta vários nozinhos. Esse caule, cortado em pedaços, é que é plantado. Dos nozinhos nascem os brotos, que se transformam em pés de mandioca.

O caso da mandioca nos acompanhou por anos. Vira e mexe trazia ela o caso da nova caipira que não sabia plantar mandioca.

Há cinco anos, ela faleceu. Foi um amor de sogra: uma mãe. Não só mãe, mas a mãe carinhosa que toda filha gostaria de ter.

Marinheira de primeira viagem - NO CAMPO

Certa vez, tive uma égua chamada Paloma. Prenha, prestes a dar à luz a um potrinho, Paloma deita-se no chão de terra. Nós esperamos.

Saímos, voltamos. Nada acontecera.

Preocupados, perguntamos ao caseiro se seria possível ajudá-la. Não. Se nos intrometêssemos, ela recusaria o filhote.

Mais tempo se passa, e nada do potro nascer.

Afinal, coloca ele a cabecinha para fora, encoberta pela placenta, e permanece nessa posição.

Há um estalo, uma voz que vem do passado, quando minha filha estava para nascer:

- “Mais força, agora, serão ela morre sufocada!”

Percebo que a marinheira de primeira viagem deitara-se em um terreno em declive, com as pernas para a parte mais alta. A topografia não a ajudaria a expelir o filhote. Até pelo contrário: teria ela que fazer um esforço além do natural, para que ele nascesse.

Peço a minha filha que segure a cabeça da Paloma. Faça carinho e converse com ela.

Nega-se, com medo de que a mãe o recuse.

- “Faz o que estou mandando!”

Com as mãos, puxo o potrinho, que escorrega, com facilidade.

Rasgo a placenta para que o potro respire. Começo a puxar, enrolando como uma corda, aquela pele longa e molhada. Enrolo, enrolo, e não acabava mais. Pronto: estou tirando já as tripas dela. Meu Deus, o que fiz!
De toda forma, já estava feito. Saímos, para deixar mãe e filho à vontade.

Em uma hora estava ele em pé. Meio trôpego, mas em pé.

O que enrolei no braço, foi só a placenta mesmo.

O potrinho? Foi cuidado pela mãe, naturalmente.

Essas marinheiras de primeira viagem!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O rapaz da esfiha

Quando a Renata era adolescente, pelos quatorze anos, teve seu primeiro namoradinho.

Um dia, o garoto a levou ao Habib’s, para comemorar.
Comeram esfihas, naturalmente.

Conversa vai, conversa vem, ele deu-lhe um anel. Anel de compromisso, entre namorados, como é comum, hoje em dia.

Tudo muito bom, muito bonitinho.

Até que ele sorriu: havia “uma esfiha” cobrindo o dente dele.

Visto o sorriso com a “esfiha”, acabou o amor. Ficou marcada a imagem, e ela não podia mais esquecer do sorriso, nem da esfiha, quando olhava para ele. Transformou-se do rapaz bonitinho no rapaz da esfiha.

A história já me foi contada mais de uma vez. Sinal da importância que teve na sua vida.

Daí, que a lição ficou. Para ela e para mim. Talvez não para ele, pobre rapaz, que nunca soube o que fizera de errado, para esfriar um relacionamento tão agradável.

Assim, sempre que como alguma coisa, corro ao espelho verificar se não tenho “uma horta” cobrindo os meus dentes (sou louca por saladas).

sábado, 1 de dezembro de 2007

Não se tome a parte pelo todo

Costuma-se tomar a parte pelo todo.

Como se o veiculado no noticiário pudesse representar a unanimidade. Mas não é assim.

Notícia boa não vende jornal.

Há atos recrimináveis praticados em todos os setores da sociedade.

Os policiais pertencem a uma organização, submetida à rígida disciplina.

Ganham pouco, o que os coloca entre a classe dominada.

Moram lado a lado.

É raríssimo filha de classe média matar seus pais, pela herança.

Quando acontece, o caso repercute na memória das pessoas, por anos a fio.

Pagará ela além do que o que cometeu o mesmo crime, na favela: com a sua imagem.

A polícia paga, com a sua imagem, pelos atos divulgados na mídia, praticados por alguns de seus elementos.

O fato de um caso ser divulgado na imprensa não tem o sentido de regra, mas de exceção, caso contrário, não teria notoriedade.

Não vai a público o regular, o normal, mas aquilo que foge ao padrão aceitável.

Não vai a público a briga de comadre.

Não vai a público o sujeito pobre que baleou o colega de bar.

Não vão a público as misérias da vida cotidiana.

Se os parlamentares do Japão se pegarem de tapa, será notícia no mundo inteiro.

Se um chefe de Estado cometer uma gafe, no dia seguinte, estará estampada em todos os jornais.

Porque o que é interessante veicular são as exceções de quem está em evidência.

Se o sujeito é pobre, não interessa o que lhe passa, a não ser que ele represente a força, o poder.

Ainda que seja ele apenas uma peça.

Peça defeituosa.

Da vírgula - NO FÓRUM

Ontem, precisei intimar as partes de um processo sobre despacho de nosso juiz. Todavia, a decisão era manuscrita, e a incompreensão de duas palavras comprometiam o significado do texto.

Após várias leituras, sem êxito, submeti o texto à Rose, colega de cartório, com vinte anos de exercício.

Não soube dizer ela do teor do despacho.

Em nova tentativa, exibi a decisão à escrevente de sala, nossa colega Miriam. Ela conhece melhor o juiz, a letra do juiz. Com certeza saberia.

Mas também não soube dizer.

Finalmente, mostrei a folha ao nosso diretor, Varella. Ele a leu, não entendeu. Leu novamente.

Virou a folha, e tinha algumas outras palavras rabiscadas no verso. Pronto, o contexto trouxe as palavras que faltavam.

Uma vírgula, longa vírgula, caída da linha superior, transformara-se em um C, ensombrecendo o significado das palavras que não conseguíamos traduzir. Apenas uma vírgula.

Meu hummm espontâneo, de compreensão, trouxe a atenção dos colegas que nos observavam.

- Foi só a vírgula que caiu!

De carros e seguros

A Joice tinha acabado de estacionar o carro, em frente à faculdade.
Chamaram-na: bateram em seu carro.
A motorista tinha seguro, foi educadíssima.
Previsão: quinze dias sem o veículo.
Resultado: quarenta e cinco dias na oficina.
Ela tem necessidade do carro: mora em Moema e atravessa São Paulo para estudar e trabalhar em São Bernardo.
Até hoje a janela precisa de uma mãozinha, para fechar.

Sábado à tarde, o William dirigia-se ao curso ministrado aos escreventes.
Bateram em seu carro.
O motorista tinha seguro, foi educadíssimo.
Previsão: vinte e quatro horas sem o carro.
Chegou a pensar que era piada.
Resultado: no dia seguinte lá estava o seu carro.
Novo.
Na segunda-feira, foi trabalhar de carro.

Qual a diferença?
A seguradora, talvez.
Pode ter sido, também, o plano.
Mas penso que o motivo fundamental seja porque quem bateu no carro dele dirigia uma BMW.

Pequena diferença, que alcança grandes resultados.

E se quem avariar o seu carro for um calhambeque velho, caindo aos pedaços, sem seguro?

Aí, você estará com problemas, se o SEU carro não estiver segurado.

Prova com a Leonor

Ontem tivemos a última prova de Processo Penal deste ano. A professora que nos acompanhou foi a Leonor, de Direito de Família.

Das vezes em que levantei a cabeça e a olhei, sorria.

Ao final, depois da entrega da prova, ela comentou comigo que é interessantíssimo estar lá na frente, enquanto fazemos a prova. Deveriam filmar, porque é muito engraçado.

Eu rio o tempo todo. Disse que, se depender do meu humor, devo ter ido muito bem.
Comentou também de outros colegas. O Márcio, por exemplo, resmunga durante toda a prova. Outros têm os olhos espichados para a prova dos colegas.

As pessoas desligam-se, e agem instintivamente, em atitudes cômicas.

Eu não sabia que ria, durante as provas.

Deve ser muito chato para o colega ao lado, que precisa de pontos, olhar para mim.
“A desgraçada, além de tudo, fica rindo!”

Ocorre que acho engraçado quando, se de três assertivas, sei duas, e na escolha das opções-teste, sobram duas que enquadram as possibilidades permitidas pelas afirmativas.

Penso que posso recorrer a um atalho, mas o professor me pegou, de novo.

Então, tenho que ler novamente, com mais atenção, a última proposição.

Pode não ser engraçado para muitos, talvez a maioria.

Pode até nem ser engraçado.

Poderia pensar que é um azar, porque não pude adivinhar a resposta, como também poderia pensar que o professor foi esperto, antevendo a minha dúvida.

Tudo depende.


Maria da Glória Perez Delgado Sanches
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Sotaque português-italiano - NO FÓRUM

O advogado tinha o falar carregado nos erres, como o daqueles repórteres com o sotaque paulistano de antigamente. Dizia-se que éramos os únicos, na língua portuguesa, a falar com o sotaque italiano. A maioria dos paulistanos o perdeu.

Pois ele usava um falar em tonalidade mais alta, clara e profunda, enchendo o cartório da sua personalidade.

Nossos olhares se voltavam para ele e para a estagiária que o atendia.
Chamam-me. Vou ao seu encontro.

O processo é de 1978. Afirma ele que houveram ordens para a expedição de mandados de levantamento.

Solicito que mostre, nos autos, a ordem do juiz. Ótimo.

Então, peço que encontre os comprovantes dos depósitos. Não estes, mas aqueles, porque preciso de tais e tais números, para copiá-los. Fazemo-lo juntos.

Rabisco no verso da capa as folhas das quais preciso: pronto!

Hoje estará pronto, amanhã será assinado e daí retornarão os autos, para a retirada das guias.

- Deixo o telefone, para você me ligar?

- Não, o senhor pode acompanhar o andamento pela Internet. Depois do “aguardando assinatura”, estará aqui.

Sai feliz.

Tornando à minha mesa, a Silvia comenta que ele teria dado trabalho. Não, respondi. Ajudou-me com um processo longo. Eu teria levado mais tempo, procurando os dados, para cumprir a ordem do juiz. Agora, em cinco minutos, faço tudo.

Um falar profundo, a voz de trovão, pode indicar personalidade ou sei lá mais outras características da pessoa. Não sou especialista da área. Deixemos o assunto para quem o queira pesquisar. O fato é que não podemos nos deixar intimidar com isso.

Ele é o interessado. Se bem conduzido o diálogo, os conhecimentos que ele tem dos autos podem me ajudar a fazer o meu serviço, que vão ao encontro do que ele deseja. Se assim for, ambos sairemos ganhando, e mais felizes.

Às vezes, tornamos a coisa complicada, quando não o é.


Maria da Glória Perez Delgado Sanches
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terça-feira, 27 de novembro de 2007

Saia justa

Nosso professor Maximiliano é Promotor de Justiça no fórum de São Bernardo do Campo.
Certa feita, foi procurado por uma mulher, estourando de grávida e desesperada.
Se ele não interviesse, correriam, ela e a criança, risco de vida.
Já estaria na hora da criança nascer, mas o médico não autorizava o parto.
- Como não autorizava?
- Não autorizando. Segundo ele, não teria chegado a hora. Mas eu sei, porque aconteceu a mesma coisa com os meus outros filhos. Eu sou a mãe, tenho certeza.
Lá foi o nosso professor-promotor-de-justiça promover a justiça no caso concreto.
Chegando ao hospital, falou com o médico responsável.
- Se o senhor não autorizar, terá que responder, se acontecer alguma coisa com esta mãe ou com a criança!
Foi feito o parto e tudo correu bem.
Discorrendo sobre o assunto, conosco, colocou uma questão muito delicada, que ocorre quando pensamos fazer o bem, o que entendemos como certo, e as coisas podem não sair de acordo como prevíamos.
- E se não fosse, realmente, o tempo de a criança nascer, como eu me sentiria? Como ficaria a minha consciência?


Maria da Glória Perez Delgado Sanches
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sábado, 10 de novembro de 2007

O VELHO E A PERNA

Esta foi-me contada pelo Silas.

Outro dia, estava ele sentado no ônibus, cansado, meio dormindo, meio acordado.

Mantinha as pernas abertas e estendidas.

No sono ou quase sono, ouve:

- "Se você não tirar a perna daí, vou quebrar ela!"

Era sonho.

DÓLO, NÃO DÔLO!

Entre tantos alunos, lecionando-se por tantos anos, as lembranças confundem-se.

Mas os episódios passados entre professor e aluno ficam marcados.

Nunca esqueço da primeira vez, no primeiro ano, quando lhe fiz uma pergunta, e o professor me corrigiu.

Eu havia dito "dôlo", ao invés de "dólo".

Daí em diante, nunca mais incorri nesse erro.

Ao contrário, quando diziam "dôlo", eu corrigia: dólo!

A resposta ao reparo, invariavelmente, questionava a fonte.

Então, eu remetia-me à primeira correção, inserindo todo o tamanho do professor Helcio para corroborar a minha afirmativa.

ITANHAÉM, MEU PARAÍSO

ITANHAÉM, MEU PARAÍSO
Nada vale um coração tranquilo.

MARQUINHOS, NOSSAS ROSAS ESTÃO AQUI: FICARAM LINDAS!

MARQUINHOS, NOSSAS ROSAS ESTÃO AQUI: FICARAM LINDAS!

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